SEGREDOS DA RESPONSABILIDADE EUROPEIA
Os índios são da Planície. Desenham um círculo sobre a terra. A terra que cura e fortifica. No centro do círculo cruzam-se as quatro direcções principais: norte, sul, este, oeste. O centro do círculo é um lugar sagrado. Nele confluem todas as forças do universo. Aí, pode o índio erguer a sua tipi, a habitação, ou, dispondo-se em círculo, realizar as danças e rituais sagrados. Na cultura indígena, todas as formas relevantes da natureza podem ser reconduzidas ao círculo. O tronco das árvores, a forma arredondada dos astros e pedras, a posição que cada membro da tribo ocupa na disposição circular do acampamento… O círculo é a figura do poder e da organização social de muitas tribos índias da América do Norte, como os Dakota e os Omahas. Durante a caça anual, as tribos acampavam em círculo mantendo, deste modo, a divisão politica e social da tribo. O círculo podia ter um diâmetro variável; um quarto de milha ou mais. Por vezes, o acampamento era disposto em círculos concêntricos. Cada círculo era ocupado pelos membros de um clã (segundo regras ancestrais), de modo que cada um sabia qual o seu lugar e disposição relativamente aos outros membros da tribo. A organização circular da tribo, segundo regras antigas e fixas, permitia evitar desavenças e conflitos internos. Ao chegar a um novo terreno, as mulheres do clã sabiam exactamente onde instalar as tendas, evitando assim disputas sobre os melhores lugares. O círculo permitia também organizar mais eficazmente a defesa do acampamento, criando um espaço circular, facilmente defensável de ataques exteriores. (cfr. Frederick Hodge ed., The Handbook of Indians of Canada, citado em A Fala do Índio, Fenda) O acampamento com as tendas dispostas em círculo e viradas a leste (no caso das tendas cerimonias) é um símbolo forte da organização tribal dos índios. Uma organização circular, simultaneamente, coesa, completa, igualitária. A ocupação circular do território por parte do índio (uma ocupação de efeitos e densidade limitada), recalcada das formas relevantes da natureza, sagrada no seu significado e simbologia, foi substituída pela ocupação rectilínea, linear, do homem branco. A ocupação do continente americano por parte dos europeus foi feita segundo linhas rectas. Seguindo rotas e caminhos precisos, unidireccionais, para oeste, na sua maioria. Linhas de expansão, definidas por traços sobre o mapa, que se projectam segundo uma lógica «extensiva», imparável, em direcção a novas terras, novas aquisições, novas conquistas. Desde Alexandre o Grande, generais e Imperadores romanos, que a marcha dos conquistadores faz-se segundo linhas rectas de expansão e direcções de sentido único. [Mesmo que a conquista do território implique desvios e recuos]. Em frente, marche! – é o grito da expansão europeia. As tropas não andam em circulo. Para nós, que não somos índios, andar em circulo é o mesmo que andar perdidos. A conquista da América fez-se também segundo as linhas rectas, paralelas, dos caminhos-de-ferro − esse símbolo poderoso da conquista do Far West, o oeste mais longínquo e recôndito [diríamos mesmo, o mais sagrado e circular] da América do Norte. Mesmo as cidades norte americanas foram organizadas em torno de uma rua central, ou avenida, traçada em línea recta. Em alguns casos, a recta principal bifurcava-se sobre outras rectas, novas ruas, num efeito de quadricula, que define o essencial da matriz topográfica da cidade norte americana → Linhas rectas que se cruzam sobre linhas rectas até formarem uma extensa rede de cruzamentos de ruas, avenidas e rectas, que cruzam sobre outras ruas, avenidas e rectas, num desdobramento infinito de rectas/ruas, que se desdobram sobre outras rectas/ruas. Quem se coloque sobre uma dessas ruas e olhe para um dos seus lados, o poente, por exemplo, nada alcança com o olhar. Apenas uma fileira de prédios que se estendem ao longo de rectas paralelas, de um lado e de outro da avenida, sem fim, sem nada que se vislumbre como fim, sem horizonte. A imensidão das cidades americanas ( o seu fascínio e beleza, também) advém, em grande medida [mas não só. Não podemos esquecer a extensão geográfica, humana, imensa, ilimitada destas metrópoles que parecem não ter fim] do efeito de réplica que surge quando as linhas horizontais (ruas avenidas e rectas que se cruzam sobre ruas avenidas e rectas) se encontram, ao nível da rua e dos passeios, com as linhas verticais, que projectam os aranha céus em altura. O cruzamento de linhas verticais e linhas horizontais, parece amplificar [há também um efeito sonoro, de amplificação do espaço urbano construído em redes de rectilíneas paralelas e perpendiculares; milhares de pessoas – em transito – que se escoam por entre prédios, avenidas, linhas e fuga efeitos sonoros] e o efeito de colosso (óptico também) da cidade americana.
A recta é infinita → O optimismo e confiança americanas estão firmemente alicerçados nas linhas rectas com que a América projectou o seu espaço imperial e a sua imagem de grandeza e de poder. [O mesmo se poderia dizer da forma “correcta”, quer dizer, “com recta”, “com rectidão moral” com que uma certa América determinou os seus valores. Valores transcendentes assentes na crença num ser infinito, fundador dos valores universais da América, como na infinita justiça da politica americana; da sua Constituição, dos seus valores democráticos, das formas de organização social]. Com a ocupação colonial, a organização do território americano deixou de ser circular, para se tornar rectilínea. As delimitações da propriedade americana [como as formas lineares, (naifs?) com que a América, muitas vezes, se vê a si própria e o outro] foram gizados sobre figuras e geométricas rectangulares, precisas e lineares. Quadrados e rectângulos permitem delimitar a propriedade [e a alteridade] de forma precisa e equitativa. Sobre as figuras do quadrado e o rectângulo fundou a América o sentido de igualdade e justiça, que orientou a distribuição do território conquistado. Só se delimitada segundo formas justas e proporcionas, podia a terra ser distribuída equitativamente pelos colonos. Assim, a terra indígena foi dividida em talhões proporcionais, traçados a régua e esquadra, segundo as figuras geométricas equitativas do quadrado e do rectângulo. Com a ocupação rectangular / quadricular da terra, perdeu-se o sentido do sagrado que o círculo propunha e relembrava constantemente ao índio, sempre que montava um novo acampamento, ou inaugurava uma nova habitação. As figuras rectilíneas da ocupação colonial, alteraram para sempre a ‘visibilidade circular’ da ordem social e da organização do território, que a organização indígena permitia. [Numa perspectiva inversa, poder-se-ia dizer que a ocupação rectilínea do território talvez introduzisse uma outra visibilidade, aberta sobre linhas de fuga do infinito, traços rectilíneos, avenidas sem fim, rotas lineares de expansão e crescimento, formas rectas (mesmo no sentido moral), sequenciais na organização e controlo da sociedade (arquivos, catalogações etc), a ocupação humana do território planificada sobre linhas rectas, longitudinais e latitudinárias, sobre valorizações, gestões, usos, posses e bens naturais que a linha recta → a recta linha → a rectidão moral (ou uma certa ‘rectidão’ moral) permitiram ou inauguram]. Num espaço organizado segundo linhas rectas, o outro deixou de se situar, de ver e de ser visto, no segmento de circunferência. Já não é possível, na organização rectilínea do território, sobretudo urbano, ver o outro, ou ser visto por ele. O vizinho está oculto. Situa-se numa paralela, para além do muro, ou dos limites (sempre rectilíneos) da propriedade.
O espaço moderno deixou de ser circular → Deixou de se poder circular no espaço moderno. De o ocupar segundo formas circunscritas, delimitadas. A recta abriu o espaço ao infinito. A linhas infinitas de ocupação e exploração. A deslocações segundo líneas rectas, predefinidas. Estradas e auto – estradas, por exemplo. [Mas também rotas aéreas, ferroviárias, marítimas. Formas rectilíneas/ quadradas de organização do trabalho, por exemplo. A línea de montagem que permite a repetição ad infinitum de séries, gestos, proceduras, infinitos desdobramentos de uma acção matriz] . O que vemos diante de nós, nas estradas e auto estradas, são carros. Costas e traseiras de carros. Todos virados para o mesmo lado, para a frente. De costas, ou lado a lado. Todos unidireccionais! Circulando em sentido único, para um lado, ou para outro, da faixa de rodagem. O grito hoje é o mesmo de sempre: «Em frente, marche!», só que ao volante do automóvel! As marchas da conquista fazem-se hoje ao volante do automóvel, segundo percursos predefinidos, lineares, repetitivos. Continuamos a seguir em frente, como os conquistadores, não no afã de conquistar novos territórios, mas de encontrar territórios (indígenas talvez?) em que nos possamos situar, ou considerar como nossos. O sentido de propriedade hoje é mais difuso, do que no passado. Uma casa, um terreno, um bem tangível, mas também um estatuto social, um lugar na ordem social e do trabalho, um estilo de vida. Os «commuters» são as figuras sofridas do movimento moderno, linear/rectilíneo, de busca de um território indígena → (Um trabalho. Um salário. Um estatuto que permita usufruir, o mais possível, das comodidades da vida moderna.) → Queremos casa, queremos carro. Queremos viajar, ganhar dinheiro, muito dinheiro, fruir dos prazeres que a vida moderna proporciona. Somos os conquistadores patéticos dos tempos modernos. Os Dom Quixotes de um império – o império do consumo e do desperdício – em decadência. Proprietários de uma terra dividida em talhões e disputada por certidões de propriedade. Um planeta doente. Estamos todos colocados em linha. Um prédio, um bloco de habitações, uma estrada, uma linha de montagem, uma hierarquia de poder e subordinação, uma sequência burocrática, numérica, uma fila na repartição publica... Cada ponto de uma recta é um ponto igual a qualquer outro, numa ordem infinita. Nada o distingue, nada o centraliza. Numa recta perdemos a nossa individualidade. Somos um ponto indefinido numa sequencia infinita/indefinida de pontos. Transformamos os espaços vitais, circulares, singulares, sagrados, em linhas rectas, que podem ser sequenciadas, ocupadas/exploradas ad infinitum. [Burocratizadas, conhecidas. Quando é que a genética, o DNA sequenciado e outras proceduras análogas, se tornará no modelo de organização e inteligibilidade das sociedades futuras, como a biologia o foi das sociedades rácicas e física quântica é-o do relativismo actual?].
Segmento de linha → A arquitectura moderna intensiva desenhou os espaços urbanos em forma de figuras sólidas quadriculares. Blocos habitacionais, torres, bunkeres, que é preciso habitar, defender. Os perímetros da propriedade estão hoje limitados por cercas. Há de todos os tipos e feitios. Cercas de madeira, em rede ou arame farpado – a delimitação ferra da propriedade . A guerra começa aqui. Na propriedade que é preciso defender. A historia transformou-nos em proprietários. De recolectores, nómadas das planícies, ciganos sem fronteiras, tornamo-nos proprietários. Gordos e sedentários. De terras, de casas e bens sobre os quais reclamamos direitos de propriedade, como um imperador a posse do seu império. Na transformação da terra em propriedade, a terra ficou sujeita às leis da propriedade, da herança e, por conseguinte, da especulação. Negociada como mercadoria, embora não seja nem produção, nem produto transformado. Apenas posse e usufruto. A terra suja, que cheira a terra, húmida e negra, com lombrigas e raízes dependuradas, entrou nos espaços higienizados da especulação financeira, sob a forma de activos. De Londres a Paris. De Xangai e Nova Iorque a terra negoceia-se em lances. A terra e tudo aquilo que sobre ela construímos ou sob ela extraímos como propriedade e matéria-prima, tem um valor especulativo; negociável, inflacionado. A conquista transformou a terra em propriedade e a especulação atribuiu-lhe um valor. A terra é agora um bem tangível. Onde antes mediam os metros, a extensão da propriedade, suas delimitações e confrontações, agora, atribui-se um valor, pago com dinheiro à vista. Cash and carry. Compre e leve. Não admira que estejamos entrincheirados nas nossas propriedade. Virados para a frente, para a rua de sentido único de onde surge o inimigo, o “bandido” o ladrão da coisa alheia. É preciso defender/proteger a propriedade. Não o que nela vive e habita. Mas o seu valor. → Cuidado com o cão, é o letreiro mais comum à entrada da propriedade privada. Substituido, entretanto, por formas mais sofisticadas de sorvelhança da propriedade. Câmaras de vigilâncias, alarmes centralizados anti intrusos, toda uma panóplia de dispositivos de vigilância e controlo. O valor transformou a propriedade num lugar policiado. E nós transformados em proprietários, ficamos reféns da propriedade, do seu valor e dos muros altos que a cercam como uma prisão.
Vivemos em espaços rectilíneos → Da arquitectura linear exige-se que crie campos de visão desimpedidos. Que acompanhe a promessa de espaços infinitos que perspectiva projecta. O comprador do imobiliário não admite nada que se entreponha entre ele e a projecção infinita do espaço. O outro é sempre um estorvo, no campo de visão criada pela perspectiva e suas linhas de fuga para o infinito. Qualquer elemento que ofusque a vista, deve ser eliminado. Cortem-se, se for preciso, as árvores apanhadas na projecção rectilínea do espaço. [A árvore, qualquer árvore na natureza, está sempre situada numa relação circular (sagrada) com as outras árvores] O campo de visão construído pela projecção linear, não admite nada que interfira na «visibilidade» projectada por linhas infinitas, volumetrias lineares.. Profunda contradição, a da arquitectura intensiva. Um black out das vistas! O outro já não se encontra ao alcance da vista. No campo de visão linear, o outro aparece de costas, nas traseiras da casa, ou ao lado, na sequência de blocos habitacionais que se sucedem sobre blocos habitacionais. Nem o vizinho, nem nós, nos encontramos numa relação circular, de solidariedade e pertença. O outro encontra-se fora do nosso campo de visão. Vive no andar de cima, ou no de baixo. Noutro lugar. Atrás do muro. Posicionado sobre linhas verticais, projectados em altura. Ou, do outro lado da rua, numa recta que se escapa para o infinito. Nas sociedades organizadas de forma rectilínea, sequencial, o outro encontra-se fora da circunferência, do ver e ser visto, da presença viva, enraizada. Fora do círculo de paz. Na cerimónia da paz dos índios, os contendores sentavam-se em círculo e o cachimbo da paz passava de mão em mão, evocando, na pureza da forma circular, a acção benéfica dos espíritos. A máquina de guerra exclui a circularidade. Opera , pelo contrário, segundo uma lógica linear. A disposição dos soldados é feita sobre uma linha. Linha de fogo. Linha da frente. Os movimentos das tropas são rectilíneos. Por vezes, fecham-se sobre o inimigo, num movimento em tenaz, para o cercarem → formarem uma cerca. Ou então, ficam enterrados sob uma linha de defesa e morte, a trincheira, fossos hirtos, rectos, que cortam o campo de batalha, como feridas em sangue. Nunca general algum organizou a guerra, a matança, a chacina que a agressão bélica implica, sobre um círculo. O círculo não permite a camuflagem. Todos os que estão dispostos segundo uma conferência, vêem e são vistos. A cidade só pode ser sitiada numa aproximação rectilínea, que bifurque em cerco. O cerco parece um círculo, ao olhar incauto. Mas é um cerco – linhas de fogo, violência e destruição, curvadas sobre o inimigo. Não se pode abrir fogo, sobre um círculo. Corre-se o risco de atingir o amigo, invés do inimigo. Avancemos, pois, sobre as linhas rectas da terra.



Nem Derrida, que sempre favoreceu uma reflexão fina, resistiu em colocar o pensamento da Europa sob risco, uma ameaça, um perigo que parece funcionar [não para Derrida, mas para uma certa reflexão europeia] como um catalisador, um toque a rebate, para pensar com urgência a Europa. O pensamento da ameaça tem sido persistente na reflexão e politica europeias. Revela-se nos avisos sobre os perigos que assombram a cultura europeia , desde a Segunda Guerra Mundial. O perigo do eurocentrismo, do totalitarismo, de um regresso às categorias exclusivas com que a Europa se pensou no passado. O pensamento da ameaça revela-se também na dramatização do discurso político europeu. Nas soluções ‘inadiáveis’, nos apelos em nome de uma União que gosta de se conceber como contraponto seguro aos perigos, reais ou presumidos, que acompanham a ‘construção europeia’: a guerra, o regresso aos nacionalismos, as perseguições e ódios étnicos, a pobreza, toda uma prefiguração da catástrofe europeia que serve para criar um sentimento de medo e inevitabilidade do processo politico europeu. O pensamento da ameaça – o pensamento construído a partir do perigo, real ou presumido – aspira a uma Europa ‘fora de perigo’, ‘ao abrigo da ameaça’. De colocar a Europa num lugar «seguro», protegido, vigiado, mesmo se por CCTV. De transformar a Europa num lugar familiar, sem surpresas, nem vicissitudes, em que todos partilhem os ‘mesmos’ valores e, espera-se, as mesmas aspirações de decência e paz. O lugar (conceptual, politico e jurídico) com que a Europa definiu uma ideia securitária de si mesma, tem sido determinado muito pelas noções de fronteira exterior e direito comunitário. O direito comunitário, [e certas ‘problemáticas politicas’ surgidas recentemente em torno da questão da fronteira geográfica da Europa] estabeleceu um corpo jurídico de leis e normas, exclusivo dos europeus. O ‘lugar juridicamente seguro’ que muitos desejam para a Europa. Desde as normas de protecção ao consumidor, até à carta dos direitos e deveres dos cidadãos europeus, a produção jurídica europeia tem vindo a definir a Europa como um espaço protegido e regulado pela lei. Onde os cidadãos se encontram ‘ao abrigo da lei’, protegidos pelo direito comunitário. A protecção legal exclusiva dos cidadãos europeus, tem originado no entanto novas exclusões e ameaças. O direito comunitário, que define o espaço jurídico europeu como um espaço seguro, regulado pela lei, tem sido responsável pela criação de espaços desregulados, que se encontram fora da protecção legal. Espaços de abuso, descriminação, violência de que os cidadãos europeus de ‘pleno direito’ se julgam imunes, graça à ‘protecção’ que as leis comunitárias conferem. Espaços habitados por ‘ilegais’ – pessoas sob permanente ameaça, [ameaça de serem presos, expulsos, destituídos dos seus direitos sociais e legais]. O direito comunitário é responsável pela criação da Europa sob a protecção da lei e pela Europa que se encontra sob a ameaça da lei. A distinção entre ‘comunitários’ e ‘extra-comunitários’, reflecte bem o resultado pernicioso do sonho securitário europeu. A ideia de que o direito comunitário podia promover uma Europa sob a protecção da lei, justa, livre dos perigos do abuso e da ilegalidade, caiu por terra. O direito destinado a universalizar a protecção legal dos cidadãos europeus, acabou por colocar muitos dos que vivem actualmente na Europa, sob a ameaça da lei e regulamentos comunitários. O sonho de uma Europa securitária morre também de uma outra ilusão. Historicamente a segurança europeia foi defendida a partir das fronteiras nacionais [através das autoridades aduaneiras, policial, ou militar em tempo de guerra]. Entretanto, a Europa criou o espaço de livre circulação de cidadãos, bens e mercadorias. As fronteiras interiores europeias deixaram de existir. A defesa e segurança europeias foi deslocada para a fronteira exterior, transcontinental. O perigo que no passado ameaçava a fronteira do Estado, perigo que vinha de um país vizinho, de um inimigo que se aproximava da fronteira numa marcha inexorável e ameaçadora, através do continente, transformou-se num perigo longínquo. O perigo hoje, na Europa, vem de longe, de além mar. De outrem. A ameaça na Europa tem hoje o rosto do estrangeiro. As figuras com que se diz e pratica a discriminação no velho continente, são bens conhecidas. O imigrante, o clandestino, o extra comunitário. Gente que vem de longe, de outra margem. De outro cabo. O rosto do criminoso, raramente europeu, se atendermos às noticias de jornais e televisões, contribui também para projectar a falsa ideia de uma Europa ameaçada do exterior, mas segura dentro das suas fronteiras. O criminoso é sempre estrangeiro. Membro das máfias de leste, dos cartéis da América latina. O assaltante brasileiro, o proxeneta ucraniano, o receptor romeno. O pensamento da ameaça transformou a Europa num lugar perigoso. Sobre ela parecem pender vários perigos. Derrida identifica alguns, em O Outro Cabo. Perigos que decorrem , na análise de Derrida, da condição de ‘cabo’ da Europa. Cabo como capitas, capital. Capital de, a capital e o capital. O perigo da capital, diz Derrida, advém da tentação da Europa de definir um lugar centralizador [mesmo se simbólico], a capital, a partir do qual ordenar a identidade cultural europeia. De projectar, a partir de um centro, o domínio cultural de idiomas e países mais ricos, ou de certas industrias culturais que, graças às infinitas possibilidades abertas pelos novos poderes mediáticos e tecnológicos, se gladiam para conquistar a hegemonia cultural da Europa (cfr. Derrida). De cair na noção de uma «capital europeia da cultura». O perigo da capital, da centralização europeia, não é tanto o que ameaça a diversidade europeia. Neste ponto Derrida é mais lúcido do que Steiner. O perigo para a Europa de se fixar num lugar capital (também no sentido do capital), centralizado e centralizador, palco de concentrações editoriais e de poder, é o perigo do controlo e da homologação da cultura, segundo critérios de conveniência. O perigo da capital é, assim indissociável do perigo do capital, dos recursos da cultura. O capital em Derrida é uma problemática intensa. Põem-se, inicialmente, como necessidade de retornar ao pensamento de Marx, ao Capital. Um regresso a Marx que Derrida pretende não ideológico, [será possível um retorno a Marx não ideológico? Como?], nem doutrinário, nem ideologicamente preconceituoso, ou dogmático, mas como um movimento critico, filosófico para, no pensamento marxiano, levar a cabo «uma nova critica sobre os novos efeitos do capital»(cfr.Derrida). Derrida toma o capital também no sentido em que Valery o define em La crise de l’espirit. Capital como capital humano e de bens. Objectos culturais,[ livros, instrumentos, obras], « que nada são –escreve Valéry, citado por Derrida – sem homens que dele tenham necessidade e que dele possam servir-se». Nisto, individua Derrida o novo perigo para a Europa e a sua ‘identidade’ cultural: o perigo do desaparecimento de homens que ‘saibam ler’, que ‘saibam ver’, ‘escutar’ ‘reescutar’, ‘rever’ – diz Derrida – desses homens e mulheres « capazes também de repetição e memória , preparados para responder diante de, responder por e para, de responder ao que eles tinham uma primeira vez ouvido, visto, lido sabido»(cfr.Derrida). A Europa como memória responsável. Uma Europa capaz de dar resposta, de assumir a sua responsabilidade, também no presente, em relação às vitimas paradoxais da discriminação que a ‘segurança’ europeia [o progresso, os direitos, a cultura da Europa] gera: os imigrantes, os ilegais, os extra-comunitários. É este o sinal de alarme nesta Europa que insiste em criar, no espaço de progresso e cultura, que ela própria gera, espaços de exclusão e perseguição [desta feita, em nome da lei e da segurança e não de uma superioridade genética, como no passado]. O sinal de alarme já soa na Europa e é perfeitamente audível, hoje como foi no passado. O que nos deve alarmar é a perseguição contra aqueles que estão sob a ameaça da lei europeia, em perigo, portanto, lei que não pára de conceber novos e cada vez mais amplos direitos, para os cidadãos europeus de pleno direito. É neste ponto que nós, aqui na Europa, devemos ser vigilantes. Não na fobia da segurança, que parece ter tomado de assalto as opiniões públicas europeias, mas na atenção, na denúncia mesmo, dos fenómenos de perseguição que persistem na Europa. Desta Europa que se tornou, paradoxalmente, vitima do direito e do esclarecimento que ela própria cria. 




















